terça-feira, 30 de agosto de 2011

Pietá num papel...

Às vezes imagino-me
Um Miguel Ângelo
A traçar frases com uma caneta
Trémula e insegura
Que esculpindo um pouco
Do que flutua no sentimento
Me leva aos maiores caminhos de abertura
O traçado foge
O traçado finge
O traçado é guiado
Cada veia daquela pedra
Cada sinal que ficou
Deixou uma leitura universal
Uma abertura de canal
Para quem de facto amou
A sua obra
A sua criação
Esta sua é a dele...
Imagino ou vejo?
Ando confusa!
Sem distinção
Não faz diferença
Sinto tantas vezes
A energia da sua presença
Como que me apoiando a mão
Guiando-a por linhas e linhas
Que se alinham
Num caminho circular
Onde saltam umas luzes fugazes
Como uns flashes
Que se repetem
Reflectem uma luminosidade
Que se entranha em mim
Fundindo-me no céu...
Não sei
Não racionalizo
Apenas sinto
Acontece
Fico horas a olhar
A sentir
O deslizar da caneta...
Acabo por adormecer de cansaço
Deixando um traço ao relento...
Acalma-se o pensamento
Agradeço ...
Acordo pouco depois
Com a sensação da mão dele no meu braço...
O cansaço esse desvaneceu...
30/08/2011








Leito de sonhos que vão...

Quando me deito e acordo
Após ter vivido desesperadamente
Uma vida nocturna
Sem saber por onde andei
Por onde vagueei
Onde não adormeci
Vi-te a um canto de um abrigo
Onde reinava a insegurança
Avistava ao longe uma fila de vagabundos
Discutiam o porquê de estar ali...
Tentei aproximar-me
Havia um escudo
Como que impedindo a minha entrada
A minha passagem
Implorei ao céu
Que me levasse
Não sei bem para onde?
Se para o meu Eu
Se para o lugar por onde sempre caminhei
E que não me pertencia
De repente
O terreno tornou-se lamacento
Negro e sentia-me atolada
Até ao limite da resistência
Pedi ao ser que me abraçava
Que me desse um sinal
Do mundo onde navegava
Se me perdia
Ou se me achava
No meio da noite
Uma voz falou comigo
Disse-me:
Traz-me a segurança
Traz-me a lembrança
Da tua vida passada
Fiquei chocada
Lembro-me de ter caído
No meio do nada
Agarrada
Ao que Deus me concedeu
Agora...
Vi-me novamente a viver
A crescer
No meio do sofrimento
Acordei ou não?
Não sei...
Tinha uma pétala ao meu lado
Soprei-a e ela ali ficou...
Como uma lágrima que se desprendeu
Do âmago do meu ser...
Para nunca mais me deixar
Com pensamentos antagónicos a viver...

30/08/2011





Amar... apenas amar...

Em plena revolução interna
Sofrendo ao limite do prazer
Acariciando cada pensamento
Cada migalha de momento
Sentindo o lapidar da alma
Sem sorrir
Sem amar
Sem partir
Ficam rastos de luzes apagadas
Gastas pelo desuso do medo
A sensação de se crescer
De olhos cerrados
Pensando em pequenos pecados
Como se fosse a própria inquisição
Aprisionando o meu coração
Quando se olha o interior
Não se vê nada
Está um vazio
Que nunca se teria preenchido
Porque nunca se sentiu plenitude
Choro com medo
Não de te perder
Porque acabei por nunca te ter
Choro
Porque me percebi
Detesto a mentira
Sou incapaz de mentir
Mas vi em mim tanta mentira
Minto a mim própria
Porque sonhava abraçar-te
Sonhava ter-te
Para me sentir renascer
Acabei por morrer
Morreu uma parte de mim
Porque a outra está aqui
A gritar de tristeza
A gritar por amor
Agarro o amor
Ou melhor agarrei-te
Sei que és
Não podes ser
Sabes porquê?
Porque sinto
Que não o és...
Sei neste momento que já não minto
Mentes-te tu...
Duas revoluções internas que se cruzam
No meio da encruzilhada do amor
Amar sem apegar
Amar sem existir
Apenas amar...
30/08/2011





segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Últimas Palavras...

Se hoje tudo terminasse

Estaria aqui a escrever

Talvez banhada em lágrimas

Com o coração apertado

Deixando algumas palavras

Para um dia serem lembradas

Nas vias do Universo

Não tenho a certeza se teria força

Para as escrever

Intencionalmente quereria

Não escreveria em verso

Escreveria palavras soltas

Que a alma desenharia para mim

Não teria medo

Só o medo de não ter cumprido a missão

No entanto o meu coração

Apaziguou tanto

Que juraria há uns dois meses

Ser impossível escrever estas palavras

Adoro amar

O amor que tanto ignorei

Hoje abraço-o

Agradeço ter essa capacidade para amar

Ter a capacidade de me libertar

Reflectir…

Estas poderiam ser as últimas palavras que escrevo…

Obrigada por ter recebido a dádiva da vida

Escrever sem medo

Escrever sem ressentimento

Escrever a amar o que escrevo e o que sinto…

29/08/2011





O céu da minha casa...

(Dedicado a alguém muito especial, que dentro em breve escreverá um livro, e que me mostrou em foto o céu da sua casa. Essa frase serviu de inspiração para este pequeno texto). Tem uns dotes musicais, até me fez lembrar uma Dj que conheço e que escreve... Divinamente...

Sentei-me num recanto do mundo

Do meu pequenino mundo

Abracei-me para me sentir

Saber que estava ali

Olhava a alegria que não se contempla

Aviva-se à medida que se cresce

Peguei num pedaço do ser

Aquele que muitas vezes quis ter

Sumia-se porque não era o momento

Olhei para cima

O sol teimava em adormecer

Uma vermelhidão invadia o céu

As nuvens acordaram

Baloiçaram

Voaram

Fazendo belas construções Celestes

Uns farrapos de ilusão

Imagens que aparentavam um coração

Chorei

Olhei

Continuei a olhar

Parecia ganhar asas

Perdi uma sem querer

Talvez por me sentir crescer

Vi o céu da minha casa

A casa nunca foi minha

O céu nunca foi meu

Hoje pergunto porquê?

Porque aquele era o céu da casa dele

Esse sim era o céu de uma casa

Que mesmo sem uma asa

Nunca se perdeu…

28/08/2011




Mãos vazias...

Tenho as mãos vazias do passado...
Procuro encontrá-las
Para poder senti-las
Poder sentir esse vazio
Que nunca me perdeu
Para poder enchê-las de um novo nada
Vibrar na fantasia
Que cada momento é mais belo
Que a própria beleza que já existia
O vazio é a alegria de reconstruir
Um novo dia
Acariciar a noite
Deixar as estrelas voar
Para poder voltar a ser
Umas mãos cheias de nada...


Estrelas...

Observava as as estrelas
Contemplava-as
Senti-as
Como fazendo parte de mim
Iluminava-as
Senti-as vibrar
Brincava com elas
Como um arco íris
Transmutavam a sua cor
Às vezes sentia dor
Outras tanta tristeza
Mas de uma coisa tenho a certeza
Iluminavam o meu coração...