A minha essência tem cor... Descobri há bem pouco tempo, que se apagava aos poucos... Resolvi conversar com ela, senti-la e pedir-lhe se me ajudava... Não me respondeu. Fiquei triste... Continuei triste... ela ria-se, ria-se... Não me ajudas! Não me respondes!
Já um pouco no seu extremo, disse-me: Já me sentiste? Já? Se me sentires e deixares de me ouvir... Escutarás a voz do coração... Ela tem razão, muita razão... Vou entregar-me à emoção...
Um pequeno labirinto, uma vaga de incerteza, despertaram naquele menino a busca de algo mais. Durante momentos de solidão, sentia a necessidade de companhia, como todas as crianças teve a companhia que mais desejava… Hoje sabe que era a que mais desejava, porque na verdade desejava qualquer uma… Uma menina morena, olhos brilhantes, cabelo ligeiramente ondulado, curto, forte e uma voz tímida na primeira abordagem. Até hoje, ou melhor até há bem pouco tempo, viviam a mesma vida, a mesma sintonia, mas em dimensões diferentes. Quando se descobre a vida, se entra nessa labuta, que não passa de uma brincadeira, imaginamos os brinquedos em ponto grande, inventamos histórias deles, e se for preciso bate-se, ri-se, chora-se, um turbilhão emocional, que não se sabe bem, se tem alguma lógica. Ter terá. Será a da criança ou a do adulto?
Começa-se sempre por dizer: Olha eu sou! E tu és… Tal… tal… E das duas uma, ou os dois entram em acordo ou um domina… O outro anula-se ou então sai discussão pegada. Mas não vivem um sem o outro. Porque de facto um sem o outro, já não são nada. O que é ser nada?
Um gosta de azul, ela do preto, ou será que ele é que gosta do preto e finge gostar do azul!
Não se percebe bem… Ela fala, fala, sempre em surdina, queria tanto poder dar-lhe um beijo, deitar-se ao seu lado, mas ainda é tão pequena que não tem força para levantar a cabeça, arrastar o corpo para junto dele. Ele nem sabe que ela quer, porque não se sabe bem quem é quem. Existe um espaço vazio preenchido por uma memória, que ficou… Deve ser bem fofinho, porque me deu forças para aguentar a vida, ser saudável, e poder viver debaixo de um mundo cruel… Hoje cresci e estou aqui… Conheci-o há bem pouco tempo. Aliás ele parecia parte de mim, mas não era… Não é… Fosse o que fosse partiu. Tinha sido tempo demais preso a mim, eu presa a ele, e nada, nada se desenvolvia, a não ser a prisão e um grande bloqueio emocional. Ainda hoje o medo que sente do ter a seu lado e não o poder abraçar é o mesmo…
Inventamos estas histórias para vivermos sem medo da solidão, porque se existe outro alguém, que não vemos, não nos aborrece e está ali, é muito mais confortável. Quando em pequena achavam que tinha problemas, tinham razão, até tinha, queria falar com ele e não conseguia. Nunca ninguém tentou compreender, falar comigo, nunca. Chorei tanto em surdina, rezava para que me levassem dali, não sei bem para onde. Alimentei uma raiva, causada pela incompreensão, que sofria na pele, ou melhor no coração.
Porque é que não tentaram perceber, porque brincava de forma diferente? Porque não gostava de ser dona de casa, porque me imaginava, a escrever histórias, e sentada a um canto, fazia rimas e mais rimas sem parar. Lia sonetos, interpretava-os e onde ficam os brinquedos no meio disto tudo? Não ficam… E o meu mémé (era um borrego de borracha, que eu adorava e ainda hoje, sinto que foi ele que tanto me ajudou). Não tinha nada de especial apertava-se e chiava, mas tinha uma grande beleza para mim, era o meu mémé… Com as voltas da vida fiquei sem nada, material, mas na minha lembrança estão estes brinquedos. Os livros esses ainda os tenho. Pensava como deveria ter sido feliz o Fernando Pessoa, hoje talvez tenha outra noção das coisas e da vida. Tudo o que imaginava, pensava, nunca era verbalizado, nunca. Poderia estar a morrer de fome que não pedia nada. Tinha tudo… Tinha o amor dos pais, da família… O que é que me faltava? Nada. Falava com Deus, falava tanto… Via-o a meu lado, à minha frente, e pedia-lhe encarecidamente para me abandonar, que não havia nada a fazer. As crianças têm destas coisas? Sabiam disto? Eu não sabia. Achava que tinha que haver uma razão para ver o sol brilhar e para ele brilhar… Adorava sentir o vento na cara… Ver a lua, e vivia de noite, o que de dia era impensável para mim. Vinham ideias, que ficavam perdidas em cadernos e uma vontade incrível de partir… Nunca estive sozinha, nunca… Nunca acreditei em mim, nunca… Se hoje estou aqui, foi porque era esta a vida que era para mim, afinal esta foi a minha escolha e nunca tinha percebido…
Sou muito mais feliz agora, apesar de me caluniarem, de sempre acharem ainda hoje que sou diferente, e sou… Sou tão diferente do que era… Vivo mais a minha essência, porque aos poucos me aproximei dela… Encontrei amigos que me compreendem, não criticam e aceitam…
Ainda ando à procura de um Príncipe encantado, que só existe naqueles contos que não li, mas que eu própria escrevi… Mas sei que um dia vou ver ainda mais do que sempre vi… A grandeza e a beleza que todos temos… Essa luz que teimo em apagar, que apesar de tudo teima em ficar e brilhar… Mais teimosa que eu… Vai trazer-me um mundo de desapego e amor. Amo a vida… Amo a noite… e pela primeira vez amo-te a ti… Príncipe dos meus sonhos… Nunca pensei que a princesa existisse. Vou-me embora, porque tenho o vestido mais belo para vestir… Porque o Príncipe está a chegar, para me levar para lá…
Tem-se a lembrança
Vive-se na esperança da volta
De um amor que se perdeu
Ou talvez nunca se tenha ganho
Corri becos
Estradas
Caminhos
Sempre acompanhada
Esperançada em te encontrar novamente
Encontrei-te
Amei-te
Já não eras tu...
A teimosia venceu
Voltei a fechar uma porta
Abri outra para tu entrares
Quando dei por mim
Já não estavas para ficar
Um homem espera
Para toda a vida
Pensei eu...
Enganei-me
Acreditei
Que foi a ti que somente amei.
Não há cansaço que canse...
Trepam-se paredes
Rebentam-se muros
Iluminam-se caminhos
Constroíem-se escadas
...De repente...
Muito de repente
A luz ofusca
A luz vibra com uma força
Que só imaginando palas de protecção
Se consegue acalmar a euforia
de subir
Caminhos
Sejam de cores
Sejam imaginados
São...
Agora vou abrir os olhos...
Cuidado...
Porque os pelicanos precisam voar...
Os humanos precisam tomar decisões...
Todos se libertam...
A luz não pode parar...
nunca vai parar...
Porque estamos aqui...
A quebrar grades...
Que nunca se viram
Mas estão aqui...
Estavam aqui ou lá...
Apenas estavam...
Voaram
Espalharam-se como penas leves...
Que a própria leveza levou.
A paz
Nasce em nós
Vive em nós
Procura-se
Desiste-se
Mas voltamos lá...
Porque somos livres na busca
Quando tudo nos inunda de obstáculos
Quando o caminho se cruza e inicia num mundo distante
Estamos sentadas
Esperando a magia da loucura
que tanto nos perde como acha
Aqui
Ali
Lá
cá
Mora a paz
No fado mais bem cantado
Aquele que na realidade nunca ouvi...
Às vezes voa-se
Outras arrasta-se
Outras está-se
Onde não interessa...
Vive-se
Renova-se
Surge a imensidão
Que importa de onde?
Sonha-se porque se ressurge
A lembrança
A esperança
De se Ser...
Abro os braços
Choro
Rio
Vou
Sou o que Sou
Se virem por aí um bocado de mim
Foi porque o vento o levou...
A quem mo entregar
Fica a lembrança que me reintegrou...
Às vezes voa-se e caiu-se...
Que bom!
Aprende-se a ser...
Às vezes... Sente-se em nós a lembrança inexplicável De uma saudade sem vontade Que nos trás a lembrança do passado... Remando num rio tão estreito Onde se bloqueia a margem Mais infeliz do peito Resmunga-se Sofre-se Com a razão de se ser De viver e reviver O que nunca se devia ter esquecido... Um pouco do incompreendido. Achei e perdi Uma parte do significado De estar aqui... Louvo ou escondo-o... A quem? Ao passado... Que faço à dor... Trago-a... Revivo-a e deixo-a ir... Volátil sobe e esvai-se em pleno Universo... Às vezes volta a lembrança... Como uma dança... que se perde... Pela antiguidade... Que importa a vontade... Se sinto tanta Saudade.